terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Como você quer morrer?

Quando faço essa pergunta, é inevitável a expressão de surpresa  — seguida de horror — do meu interlocutor.

"Eu, hein! Que pergunta macabra!"
"Deus me livre!"

A causa desse horror deve ser justificada pela nossa cultura, que valoriza e fortalece o medo da morte. Mas uma das coisas mais importantes que tenho aprendido a entender e aceitar é essa intimidade visceral entre morte e vida, portanto, temer a morte é fugir da própria vida. 

Mas aqui, a intenção é usar o conceito de morte apenas como um referencial, ou seja, a ideia é falar mesmo de VIDA. Tudo começou há alguns poucos anos (eu tinha 16... rsrs) numa palestra sobre Programação Neurolinguística, pela qual paguei quase metade do meu salário do Mc Donald's para participar (ao invés de estar beijando em boca... Isso é que dá, agora fico escrevendo essas bobagens! rsrsrs). Lá aprendi a seguinte técnica:

"Feche os olhos e imagine-se daqui a vários anos a frente, com uns 80 anos, por exemplo... O que sente? Como quer se sentir? Com quem quer estar? Onde quer estar? Agora imagine que o tempo está retrocedendo, volte no tempo e observe as coisas que está fazendo, as pessoas que encontra, os sentimentos que fluem, até chegar onde está agora." 

Entendi que esse exercício nos ensina a estabelecer um objetivo (fim) ANTES de decidir pelo trajeto (meio). No dia-a-dia, quando vamos sair, o que decidimos primeiro: o destino ou o trajeto? 

"Bom, já que o repórter informou que a Av. Brasil está congestionada, vou pela Linha Vermelha para chegar ao Centro". 

"Chegar ao Centro" já está definido antes de decidirmos "pela Av. Brasil ou pela Linha Vermelha". Qual a razão de agir de forma diferente quando o assunto é a nossa própria vida?

"Vou montar um negócio próprio!"
"Pra quê?"
"Pra ganhar dinheiro!"

A nossa cultura oferece muitos "mapas" prontos, o que é bom, pois evita que fiquemos reinventando a roda e permite seguir mais facilmente por caminhos que já foram antes explorados, e assim podemos dedicar a energia economizada para novas descobertas. Por outro lado, essa disponibilidade nos influenciou fortemente a esquecer ou desvalorizar o que satisfaz as necessidades da nossa própria essência e a adotar objetivos também já determinados. Mas o sucesso para um não é, necessariamente, sucesso para o outro. Talvez por essa razão tenhamos conhecimento de pessoas reconhecidamente bem sucedidas e mal realizadas, infelizes. 

Além disso, somos todo o tempo estimulados a dar ao meio o status e a importância de fim. "Abrir um negócio" é um meio para atingir o fim "ganhar dinheiro", que é outro meio, pois o dinheiro não é um fim em si mesmo. É aí que a "morte" pode nos ajudar (eu prefiro a ajuda do conceito à ajuda do fato! Rsrsrs) Por exemplo, o que o nosso amigo empreendedor acima vai fazer com todo o dinheiro que ele vai ganhar quando estiver no leito de morte?

Temos outro amigo empreendedor:

"Vou abrir um negócio"
" Pra quê? "
"Pra gerar emprego e renda na minha comunidade".

No leito de morte, será que ter alcançado esse objetivo terá feito alguma diferença?  

Então, a questão não está no objetivo propriamente dito, mas na razão que motiva o objetivo. E para conseguir satisfação na luta diária para alcançar esses objetivos, é necessário que ele esteja muito bem alinhado com a nossa essência, com o nosso verdadeiro EU, como diriam os psicanalistas. Imaginemos os dois negócios citados acima. Ambos exigem esforço, dedicação, tempo, energia, paciência, perseverança, sabedoria... Tudo em grandes quantidades! Qual dos dois empreendedores passa o tempo de vida com maior satisfação? Para o que tem o dinheiro como fim, cada prejuízo, cada salário a pagar, cada venda não realizada, cada necessidade de investimento pode ser motivo de irritação e estresse por provocar o afastamento de seu objetivo "ganhar dinheiro". Para o outro, cada salário pago, cada fatura paga, cada investimento representam a alegria e a satisfação do objetivo "gerar renda para a comunidade" sendo alcançado.

E assim o tempo passa, ambos os negócios prosperam, os dois empreendedores adquirirem excelente condição material (proporcionada pelo dinheiro), mas, enfim, é chegada a hora de partir. Seria possível especular sobre o filminho que estaria passando na mente de cada um?

"Dei duro uma vida inteira e não consegui sequer comprar meu iate de 28 pés...afinal, eu trabalhei pra GANHAR DINHEIRO! Quem não tem um iate, não pode ser considerado rico! E pra piorar, aqueles incompetentes (sócios, filhos) vão destruir tudo o que construí! Argh! Que vida miserável eu tive!"

"Puxa, começamos com 3 funcionários e hoje são mais de 200! Quantas famílias foram beneficiadas! Quantas crianças deixaram as ruas e foram para a escola porque os pais tinham renda! Quantos jovens aprenderam uma profissão! É... Posso descansar em paz, pois meu objetivo foi alcançado!"  

Se pudermos simular essa conversa no nosso leito de morte, acredito que isso possa nos ajudar a dar a nossa vida um sentido mais amplo e a cada objetivo menor, uma importância mais próxima das necessidades da nossa essência.

"O que devo ter sentido, realizado, visto, experimentado, vivido que me faça sentir que posso "descansar em paz?" 

É preciso muita coragem para pensar na morte dessa maneira, e é a mesma coragem para viver a vida segurando as rédeas da própria felicidade, não a atribuindo a ninguém!  Se ela não está presente (a coragem), basta escolher um item no menu de objetivos prontos e caminhos determinados que a vida nos oferece e seguir na inércia, sendo feliz do mesmo jeito. A vantagem, neste caso, é que, além de se gastar menos energia (conhecer a si mesmo e tomar decisões sobre a própria vida exige um esforço danado!), se não der certo, pelo menos a culpa não terá sido nossa... 

O Gato de Odd, personagem emblemático de Alice no País das Maravilhas, responde, cínico porém cético, quando perguntado sobre que caminho a perdida Alice deveria seguir: "Pra quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve".

Um comentário:

  1. O texto ficou muito bom. O assunto é complexo rsss, merece várias reflexões. Ah, você podia habilitar um recurso de atualizações, assim seus contatos no gmail receberiam sem você precisar postar no face. Acho que assim mais pessoas iriam ter a chance de participar dos debates rsss; se esta for a intenção, é claro. Bjks.

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